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terça-feira, 21 de abril de 2009

Exegese cinematográfica



Tudo que é imagina tem

“A minha missão é revelar a verdade e somente a verdade... seja mentira, seja capturar a mentira. Tocar na cara ou então ensinar a mostrar o que eles não sabem os inocentes...não têm mais inocente... tem esperto ao contrário” essas são as frase iniciais do documentário de Marcos Prado Estarmina. A apresentação inicial do documentário traz aspectos interessantes como as imagens em preto e branco um tanto turva e a música atípica (típica dos países árabes) que nos remete a um mundo, apesar da proximidade espacial, distante, socialmente falando.
Estarmina é a personagem real a ser revelada. Ela divide a sua morada em uma das periferias do Rio de Janeiro e o aterro sanitário da cidade onde retira os elementos que compõe a sua vida. Estes materiais recolhidos e imaginários servem de instrumentalização da logicidade aparente. A apresentação social das condições subumanas em que milhares de pessoas são submetidas em busca da sobrevivência diária, nos faz lembrar ao neorealismo italiano com um única distinção: não há uma estetização da realidade. O teor que permeia a câmera tem como projeção a decadência humana em que os sujeitos são lançados em mundo em pleno consumismo. Em relação a este aspecto, Estermina externaliza uma observação, diz ela:”quem ensinou o homem incondicional ensinou a construir também, ensinou a conservar, não ensinou a trair, humilhar, atirar, ensinou a ajudar”. Estou construção simples de idéias que mais parecem um dos receituários dos livros de auto-ajuda hegemônico no mercado livreiro, vem de uma criatura que sofre diversos distúrbios mentais. Esses distúrbios garantem a Estermina uma singularidade, uma luicidez percorrida por outros caminhos. Nota-se a conscientização diante dos modos vivere de indivíduos retirados pelo meio por não serem dotados de nenhuma serventia social sob a ótica capitalista.
Apesar da mescla entre documentário e cinema no sentido strito do termo, uma das cenas mais interessantes do filme de conteúdo metafórico, advém do enfoque dado aos urubus que sobrevoam o lixão. Com um jogo interessante no uso da imagem quando o quadro é aberto não traz nada de novidade, mas quando a câmera ativa enfoca apenas um em um sobrevôo descontextualizado do chão, traz à tona a temática da liberdade. Essa alusão sirva para referir-se a Estarmina, não com ensejo romantizado de que é na loucura ou na alucinação que se encontra as verdades, mas a possibilidade de pensar além dos dejetos em que ela e de certa maneira nós consumimos e somos consumidos.
Ao final da exibição você se mantém desfocado do estigma da racionalidade. Documentário longo e perturbador, pois mexe com os brios humanos e sociais aos quais estamos vinculados. Vale apena assistir.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Produção literária: crônica do Super Poder




A vida é mais do que uma encenação. A tragédia por mais genial que seja o seu construtor, não consegue ser tão mais completa quanto as que a realidade cria e recria, cotidianamente. Lembro-me de inúmeras sensações vivenciadas ainda nesta minha curta trajetória. Dentre elas quero agora destacar duas: a primeira de uma infância próxima, a outra do inicio da vida adulta.
Quando criança desejava imensamente saborear as diferenças de quem tem super poderes e os outros desprovidos deles. Queria muito voar com uma capa, subir em prédios sem uso de equipamentos, ter uma super espada, um robô gigantesco ao meu comando, i.e, ser um herói, imortal e protetor das pessoas. Mas quem na infância não vivenciou esta maravilhosa experiência, por mais difícil que tenha sido.
Há uma afirmação do contista e tradutor Modesto Carone que concordo plenamente: as pessoas não vivem sem ficção e esse elemento da vida faz parte de toda experiência humana. Até mesmo Paulo Honório em São Bernardo não conseguiu se abster dela porque senão qual seria o motivo de relato da sua história e a idealização da Madalena?
Recordo bem a nostalgia sentida quando li a crônica de Affonso Romano de S`antana “Antes que elas cresçam”. Apesar de minha filha ter apenas dois anos de idade na época e eu vinte três, começava a perceber que elas “não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente”.Já imaginava naquele momento a vida nos distanciando. Sensação amarga esta! O que poderia substituir aquela chegada de escola recheada de tagarelices, aventuras, intrigas, exigências... E a sensação que “Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância...” Após o susto de fuga do presente, retomei o aqui. Estava meio aliviado por perceber que ainda poderia curtir um pouco mais minha banbina.
Procurei-a, então, pela escola para aproveitar o máximo desses momentos antes que saía do banco de trás e passe para o volante de sua própria vida.
Retornando ao assunto. Da primeira passagem a última já se passaram vinte anos, da segunda, cinco. Ao longo desse lapso de tempo, muitas coisas aconteceram. Ganhos e aprendizagens. Amigos vieram e alguns se foram cedo, (não esqueço de vocês Lis e Raimundinha), mas um dos maiores momentos veio há um ano: com a chegada do outro filho. Fiquei tão maravilhado que quase entortei o garoto oferecendo o meu nome, concedendo-lhe então o título de segundo, mas a mãe dele o salvou. Hoje dia 12 ou 13 de um março qualquer, ele sem intenção alguma, uniu essas duas sensações, já meio esquecidas. A forma não foi das mais convidativas, mas acredito numa continuação feliz.
Continuo ,sim, desejando ter super poderes, mas não mais os mesmos, quero outro, mais forte e eficiente em que voar, escalar prédios com rapidez, desferir golpes irão se tornar insignificantes. O super poder almejado é o de transferência. Mas nada de me tornar invisível ou me transportar pelo tempo ou espaço. Quero apenas transferir para mim, e somente a mim, toda a carga de possíveis enfermidades ou sofrimentos que meus filhos possam vir a ter. Só quero esse megapoder para ser feliz e fazê-los também e, assim, presenciar eles crescerem e não conseguir mais colocá-los no colo, ou dar as velhas e tradicionais broncas,mas receber as suas visitas, mesmo que esporádicas.

Resenha da semana: Antígona


Antígona é um dos dramas gregos mais importantes escrito por Sófocles (496? a.C - 406 a.C.) que escreveu enumeras peças dentre as quais Édipo me Colona, Édipo Rei e Antígona, a qual analisaremos neste texto.
São personagens da obre Antígona: Antígona; Hêmon seu noivo e filho do rei; Ismênia – irmã de Antígona; Terésias, o adivinho cego; Coro dos anciãos de Tebas; Eurídice pai de Hêmon e esposa do rei, Creonte – o rei e tio de Antígona, o Enviado, o Guarda e o Mensageiro.
A trágica história de Antígona aconteceu em Tebas, cidade governada por Creonte após a tragédia do rei Édipo e a morte de seus filhos Etéocles e Polinices, numa.
Sobre a Família de Antígona se abateu uma sucessão infortúnios: primeiro seu pai Édipo desposou sua própria mãe e matou seu próprio pai, deixando um legado de desgraças, que ganha novos atos como numa complementação no drama de Antígona.
O Drama da jovem Antígona, atormentada pelo seu passado, tem continuidade com a morte de seus irmãos Etéocles e Polinices, que disputam o trono de Tebas e acabam matando-se um ao outro, construindo mais um triste capitulo da sina de Antígona. Não bastasse a morte dos irmãos o tio de Antígona – o rei Creonte decreta que Polinices é inimigo de Tebas e concede as honras fúnebres apenas a Etéocles que morreu lutando por Tebas. Ao primeiro é relegado o destino de apodrecer sobre a terra, sendo comido pelos animais.
Após saber da lei criada por Creonte Antígona resolve desobedecê-la, mesmo sabendo que a morte seria a sua recompensa. Pois ela não poderia deixar que seu irmão não tivesse direito a um enterro com todas as honras de que um cidadão tebano tinha direito. Então transgrediu Antígona contra o rei Creonte, desobedece-o e enterrou seu irmão.
Diante da atitude de Antígona, Creonte determinou que a mesma fosse morta, não atendendo aos apelos do povo e de seu filho Hêmon (noivo de Antígona) que se declarava falar em nome do povo.
Creonte só declina de sua decisão tardiamente quando já não havia o que ser feito, pois Antígona suicida-se. Suicida-se também Hêmon, filho de Creonte ao ver a noiva morta, desespera-se e desfere contra seu próprio peito um golpe fatal.
Creonte passa a compartilhar nesse momento também das desgraças familiares pois sua esposa Eurídice também se mata ao ver o filho morto e culpa Creonte pela morte de seus dois filhos.
Interessante observar nesta peça teatral alguns pensamentos jurídicos vigentes. Observa-se a criação de uma lei motivada por questões pessoais que afronta aos costumes, i.e, as tradições de um povo. Isso nos motiva a questionar já que as leis têm como principio servir como instrumento de organização da vida em sociedade, como pode uma lei ser criada apenas no intuito de servir como correção aos indivíduos mesmo que se afronte os aspectos culturais. Assim, como deveria ser os procedimentos de criação de uma lei? Apenas de fundamentar a coercividade sobre determinados desejos de alguns?
Como gerencia de regulamentação dos indivíduos dentro de uma sociedade a lei não pode ser de afronto aos interesses da maioria e nem comprometer o bem estar social almejado em principio por ela. Assim, a validação da discussão cultural na formulação das leis deve se fazer valer. Mesmo que haja razão na formulação ela não pode se dar de maneira arbitrária como Creonte quis se valer da sua vontade. Portanto, questões particularizadas não podem comprometer a harmonia social com criações que vão de afronte as tradições e normas sociais vigentes. Creonte erra ao querer validar a sua vontade, ao utilizar-se das instituições e regras do Estado para alcançar seus objetivos. E em meio a esse ato que causa um grande mal estar social, ainda põe em xeque a sua autoridade representativa, pois Antígona questiona e faz valer a tradição social frente à lei forçada. Ela numa tentativa de dignificar os mortos promove uma desestabilidade advinda do equivoco cometido por Creonte.
Diante de uma reação inesperada por Creonte, a discussão da validação ou não da lei agrava a sua situação política em diversos níveis. Caso retroceda poderá perder a sua autoridade diante dos seus cidadãos. Caso insista em se valer a sua vontade sua imagem junto aos mesmos cidadãos será desgastada. Diante deste e de outros impasses que complicam o surgimento, a validação e aceitação das leis, nas sociedades modernas, vigora um instrumento de poder maior do que qualquer outra instituição, político ou lei que é a Carta Magda. Ela constitui um empecilho para que estas arbitrariedades não sejam acometidas, pois ela seria a positivação das leis naturais como o direito, respeito, proteção e dignidade à vida. Caso tivesse a existência desta carta durante a vigência política de Tebas esse impasse talvez não existiria, pois a decisão estaria sob a égide das tradições, das normas regulamentadoras desta sociedade e das necessidades históricas daquele momento e todos os indivíduos caberia apenas ação de cumprir o que fosse determinado.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Escrever não é fácil

Gosto muito desta frase "Ler mais e publicar de menos". Muitos pseudo-autores buscam apresentar de forma imatura e apressada suas produções sem levar em consideração o papel social, intelectual e estético de um texto. Lobo Antunes, um dos maiores romancistas da autualidade, afirma que "É preciso muito sofrimento para escrever bem. E para tocar os outros". Reconheço que para escrever bem é um longo processo, pois esse ato não se resume apenas a respeitar as normas vigentes da escrita, mas atuar no ser dos outros e estar constantemente se construindo. Hoje, devido as facilidades de publicação e também ao poder aquisitivo de alguns, temos as mais variadas aberrações no nosso cenário como poemas eróticos dedicados a amigos, panorama da literatura feita no estado contendo os mais diversos erros, crônicas forçadas que nada dizem, ou melhor, em nada acrescenta para mundo.
A essas figuras deveriam ter a humildade de reconhecer que inteligencia é para poucos e talento se desenvolve com o tempo.

domingo, 2 de março de 2008

Kafka a descoberta absurda

Confesso que Kafka constituia para mim um desses autores que volta e meia sempre ouvimos falar e que aprendemos a respeitar. Até então minha visão sobre ele se resumia a leitura de Metamorfose na adolescência e o filme O processo. Mas tudo mudou. Com a leitura de Carlos Nelson Coutinho (Lukács, Proust e Kafka Literatura e sociedade no século XX) e principalmente o de Ricardo Piglia (O último leitor) em que cada um tratou sobre esse autor do absurdo é que me veio o estímulo a leitura de suas obras. Envolvi-me abertamente nesta atmosfera kafkaniana e me perdi. Como um autor consegue ser tão genial. A sua leitura é um perde-se para depois ficar mais perdido ainda. Estou entregue ao seu mundo e recomendo a todos a sua descoberta.

Modesto Carone e Kafka

Críticas e Resenhas


INEVITÁVEL NONSENSE
Na coletânea de contos Por trás dos vidros, Modesto Carone trata de uma incômoda falta de sentidoMarcio Renato dos Santos • Curitiba – PR
Por trás dos vidrosModesto CaroneCompanhia das Letras201 págs.
Divulgação
Modesto Carone: frágil limite entre sonho, delírio e ação.Às vezes, parece que nada faz sentido. Muitas vezes, é possível cogitar que falta sentido. Em tudo. Para tudo. Sobretudo. Há quem tenha a percepção de que, na maior parte das situações e ocasiões, nada tem nem faz sentido. Um destino humano se dá por caminhos, circunstâncias e atitudes nem sempre coerentes. Então, se um dia um sujeito acorda metamorfoseado em um inseto, é possível que o tradutor da obra de Franz Kafka no Brasil se transforme em escritor e ofereça aos leitores uma ficção permeada pelo nonsense.
Por trás dos vidros traz 49 contos de Modesto Carone. Todos eles, alguns inéditos e outros já publicados em livros, caracterizados por problematizar a falta de sentido. Foram escritos com linguagem clara que propõe comunicação com o leitor. Mas são enredos que têm a finalidade de provocar estranheza. E podem provocar estranheza no público receptor por que tratam de situações que podem ter tudo, tudo, menos sentido.
Na ficção de Carone o limite entre o que pode ser sonho, delírio e ação é frágil. De repente, um personagem encontra um cadáver enforcado dentro do guarda-roupa. Outra voz, em outro texto, sugere: "Como as imagens poéticas não mudam o mundo, dei a partida e fui para casa aliviado por não pensar em mais nada". Personagens, outros, entorpecidos pela realidade, buscam inéditas Pasárgadas. Numa aleatória página do livro se lê: "Órbitas acesas como pedras de carvão". Um personagem tem a mão decepada. Outro tem a convicção de que determinado mês é feito somente a partir de crueldades. Um terceiro busca refúgio dentro de uma caixa d'água. Um quarto mata, literalmente, o pai. E sombras acompanham os personagens caronianos - da mesma forma que fazem companhia a humanos da realidade real.
Contraponto ao real?Os desdobramentos, caminhos e descaminhos da realidade real, apesar da ilusão de que algo pode vir a fazer sentido, insistem em afirmar, e confirmar, que a única certeza é o nonsense. E a proposta ficcional de Modesto Carone dialoga com isso. Os destinos dos personagens caronianos não têm sentido. Seja o personagem que quase consegue ter uma relação com uma bailarina. Seja o personagem que não sabe em que cidade está e sequer pode precisar se sonha ou está acordado. Seja o sujeito que depois de ser assaltado decide beber café e não pensar em nada. Seja o burocrata que não vê saídas no labirinto em que está enredado, preso e engessado. Seja o escritor em crise de criação e de relacionamento. A falta de sentido é elemento comum entre esses e os demais personagens caronianos.
E a falta de sentido dos personagens caronianos estabelece conexões com o nonsense dessa obra inacabada que é a vida de qualquer personagem. Afinal, nenhum Moisés pisa na terra prometida, nenhum Jamil Snege desfruta de aplauso e glória por uma produção genial, nenhum Newton Sampaio é profeta em sua terra. Antes, as teclas do piano são de borracha, onde queres revólver há coqueiros, o próximo passo não passa de precipício - e o sonho se confunde com realidade, e a realidade se traduz em inescapável pesadelo.
Então, casualmente, um interlocutor sintoniza a FM ficção Modesto Carone e a freqüência induz, seduz a um estado de estar e ser que desestabiliza por soar próximo e desestrutura qualquer certeza por ruir todo solo presente e qualquer futuro. Um personagem tem os pêlos do corpo a crescer e a única surpresa é que não há nem haverá salvação, redenção nenhuma, apenas o deixar estar, ruir, perecer, falir.
E assim a ficção de Carone insinua uma contraposição ao real, parecendo inventar absurdos, mas o que é mais absurdo que a realidade real, tão próxima de qualquer pulsante ser?
O processoE se um dia você, que paga todos os impostos, você, que jamais furou o sinal vermelho, você, que acredita nos eleitos pelo processo democrático, você, que tem esperança na realização dos projetos governamentais anunciados para melhorar a educação do povo brasileiro, você, que honra todos os compromissos, então, um dia, você recebe na porta da sua casa, por meio de uma voz oficial, a notícia de que não tem mais o direito de ir-e-vir e se entrega sem questionar mesmo sabendo que nada fez para receber tal sentença: o inesperado chegou e o processo está instalado.
Supostos absurdos inesperados estão distribuídos em meio às páginas de Por trás dos vidros, mas surpresas imprevisíveis e fatais acontecem desde sempre e desde muito, e não foi assim com aqueles que embarcaram em caravelas navegando em águas nunca antes navegadas? E quem poderia prever que tempos, tempos, tempos depois iria surgir uma meridional cidade chamada Sorocaba, onde em 1937 nasceria um sujeito que se chamaria e se chamou e é chamado Modesto Carone? (E então surgiriam textos, escritos, reescritos e no século 21 uma editora paulista publicaria alguns desses textos num livro que, como um todo, trata de supostos absurdos inesperados).
E se um personagem faz anos que passa os dias agachado, é possível a frase "o olho me espia e sua carne é violeta". E se outro personagem abandona o apartamento apenas depois que um corpo entrou em decomposição, também é viável a imagem: "As paredes úmidas absorvem toda sombra de luz; imagino que é assim que alimentam os cogumelos à noite". E se o mundo continua o mesmo apesar de tudo e de tanto e de tanta ação, inação, desação, é bem possível que um livro como Por trás dos vidros tenha ido até as mãos e órbita de um sujeito que a vida também transformou em resenhista e que este sujeito, de repente, apesar de tantos outros livros ao redor, tenha lido o livro e, numa coincidência inacreditável, o resenhista, que poderia ter feito e mesmo estar fazendo tantas outras ações, quem sabe, escreveu um texto sobre o livro que trata literariamente da falta de sentido em tudo, e - quem sabe? - o Rascunho ainda publique a tal resenha.
TRECHOS • Por trás dos vidros
É tarde, a chuva bate nos vidros, ele está sentado num canto da sala. Talvez apóie o rosto numa das mãos ou cruze as pernas mas não se percebe nenhum movimento. A obscuridade é maior porque as cortinas estão descidas e a luz só filtra por algumas frestas. Não é possível registrar nada com nitidez, ele está parado ou parece parado na poltrona do canto da sala.(do conto O Natal do viúvo)
Pelas vidraças da casa de chá posso ver a fachada maciça da estação de ferro. As cúpulas de cobre estão fora de foco porque a temperatura baixou e o nevoeiro gelado começou a descer. A praça é oval, o pavimento de pedra brilha sob um reflexo instável e o relógio da estação está marcando quatro e meia. É inevitável que daqui a pouco ele soe claro como uma caixa de música holandesa.(do conto Por trás dos vidros)
Contar é o método mais eficiente que consegui desenvolver para impedir a manifestação dos urros; tanto que eles emudecem assim que o cortejo dos números parte do cérebro para a boca. O avanço é decisivo em primeiro lugar porque desmente a versão de que sou um idiota capaz de pensar; em segundo porque é desse modo que concilio o sono.(do conto Desentranhado de Schreber)
Surpreendi o esquilo na escrivaninha quando me sentei para responder a uma carta de pêsames. Embora esse tipo de obrigação me incomode, naquele momento meu limiar de resistência tinha chegado a um nível razoável. Foi estimulado por ele que resolvi dedicar uma parte da manhã à expressão dos meus sentimentos.(do conto Corte)
Desde que descobri o cadáver do enforcado no meu guarda-roupa passei a me vestir com mais cuidado. Antes bastava que uma calça ou camisa cobrisse o corpo para que eu as considerasse adequadas.(do conto O espantalho)
O AUTORModesto Carone nasceu em Sorocaba (SP), em 1937. Já atuou como jornalista. Também lecionou literatura em diversas universidades, no Brasil e exterior. Escreveu dois livros de ensaios, três de contos e o romance Resumo de Ana. A coletânea Por trás dos vidros reúne contos publicados nos livros As marcas do real (1979), Aos pés de Matilda (1980) e Dias melhores (1984) e textos editados em revistas e jornais. Carone é o tradutor da obra de Franz Kafka no Brasil.

Os livros que não lemos

Os livros que não lemos
por Umberto Eco
DIVULGAÇÃO
Cena de Ulisses, adaptação dirigida por Joseph Strick, 1967
Lembro-me (mas, como veremos, isso não significa que eu me lembre direito) de um belíssimo artigo de Giorgio Manganelli, no qual ele explicava como um leitor requintado pode saber que um livro não é para ser lido mesmo antes de abri-lo. Ele não estava se referindo àquela virtude que muitas vezes se exige do leitor profissional (ou ao amador de bom gosto), a de conseguir resolver por algumas palavras iniciais, por duas páginas abertas ao acaso, pelo sumário, não raro pela bibliografia, se um livro vale a pena ou não ser lido. Isso, diria eu, são ossos do ofício. Não, Manganelli se referia a uma espécie de iluminação, da qual, evidente e paradoxalmente, se arrogava o dom.Como falar dos livros que não lemos?, de Pierre Bayard, psicanalista e docente universitário de literatura, não trata de como saber se devemos ler um livro ou não, mas de como se pode falar tranqüilamente de um livro que não se leu, mesmo de professor para estudante, e mesmo em se tratando de um livro de importância extraordinária. Seu cálculo é científico: os acervos das boas bibliotecas contêm alguns milhões de volumes, e mesmo que leiamos um volume por dia, leríamos apenas 365 livros por ano, 3.600 em dez anos, e entre dez e 80 anos teríamos lido apenas 25.200 livros. Uma inépcia. Aliás, quem quer que tenha tido uma boa educação secundária sabe perfeitamente que pode acompanhar um raciocínio sobre, digamos, Bandello, Boiardo, inúmeras tragédias de Alfieri e até sobre As confissões de um italiano [de Ippolito Nievo] tendo aprendido sobre eles apenas o título e a classificação crítica na escola. O ponto crucial, para Bayard, é a classificação crítica. Ele afirma, sem o menor pudor, que nunca leu o Ulisses de Joyce, mas que pode falar sobre ele aludindo ao fato de que se trata de uma retomada da Odisséia (que ele, aliás, admite não ter lido por inteiro), que se baseia no monólogo interior, que se passa em Dublin em um único dia etc. Assim escreve: “Portanto, em meus cursos acontece com certa freqüência que, sem pestanejar, eu mencione Joyce”. Conhecer a relação de um livro com outros livros não raro significa saber mais sobre ele do que o tendo lido.
Bayard mostra que, quando começamos a ler livros há certo tempo negligenciados, percebemos que conhecemos seu conteúdo porque entrementes havíamos lido outros livros que falavam deles ou se moviam dentro da mesma ordem de idéias. E (assim como faz algumas divertidíssimas análises de textos literários em que se trata de livros nunca lidos, de Musil a Graham Greene, de Valéry a Anatole France) honra-me ao dedicar um capítulo ao meu O nome da rosa, no qual Guilherme de Baskerville demonstra conhecer muito bem o conteúdo do segundo livro da Poética, de Aristóteles, que ainda assim ele tem na mão pela primeira vez, simplesmente por deduzi-lo de outras páginas aristotélicas. Veremos depois, no final dessa Ecco!, que não menciono esta citação por mera vaidade.A parte mais intrigante desse panfleto, menos paradoxal do que poderia parecer, é que esquecemos uma porcentagem altíssima até daqueles livros que lemos realmente. Aliás, compomos uma espécie de imagem virtual a seu respeito, imagem feita nem tanto do que eles diziam, e sim do que fizeram passar em nossa mente. Por isso se alguém que não leu determinado livro citar para nós passagens ou situações ali inexistentes, somos mais que propensos a acreditar que o livro fala realmente daquilo. É que Bayard não está tão interessado em que as pessoas leiam os livros alheios, mas antes no fato de que cada leitura (ou não-leitura) tenha de ter um aspecto criativo e que (utilizando palavras simples) em um livro o leitor tenha de colocar, antes de tudo, farinha de seu saco. A ponto de auspiciar uma escola em que – já que falar de livros não lidos é uma maneira para conhecer a si próprios – os estudantes “inventem” os livros que não deverão ler. Exceto o fato de que Bayard, para mostrar que ao se falar de um livro não lido até quem o leu não percebe as citações erradas, lá pelo final de seu discurso confessa ter introduzido três notícias falsas no resumo de O nome da rosa, de O terceiro homem, de Graham Greene, e de A troca, de David Lodge. O caso divertido é que, ao ler, percebi de imediato o erro sobre Greene, tive uma dúvida a propósito de Lodge, mas não tinha percebido o erro a propósito de meu livro. Isso significa que provavelmente não li direito o livro de Bayard ou então que eu apenas o folheei. Mas a coisa mais interessante é que Bayard não se deu conta de que, ao denunciar seus três (propositais) erros, assume implicitamente que há, dos livros, uma leitura mais correta do que outras – tanto que, dos livros que analisa para sustentar sua tese da não-leitura, dá uma leitura muito minuciosa. A contradição é tão evidente que dá margem à dúvida de que Bayard não tenha lido o livro que escreveu.