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sexta-feira, 4 de março de 2011

O desafio de ser pós-moderno na antessala


Herasmo Braga
Se há algo que esteja tão presente nas prateleiras de livrarias, nas rodas de conversas, nas conferências, tanto quanto os livros de receitas de auto-ajuda são as obras que discutem a modernidade ou mais precisamente a pós-modernidade. Há inúmeros autores que se debruçam sobre essa discussão em todo o mundo, principalmente nos países periféricos. Afirmações do tipo eu sou moderno, ou anti-moderno, ou pós-moderno são constantes. As relações intelectuais e até mesmo afetivas parecem ser conduzidas interpretativamente por estes vetores.
Esse tema, bastante explorado – e não é de hoje – já se encontra de maneira gasta. Entre os elos das inúmeras discussões destacamos os seus muitos dizeres pouco ou nada fundamentados. Temas como fragmentação, discurso, identidade, subjetividade são marcas constantes nestas produções com um toque sempre supervalorizativo de ares da mais recente novidade.
Todavia, aqueles que atentarem minimamente de maneira reflexiva, perceberão que, dentro das construções, criações e realizações humanas a fragmentação, a pluri-linguagem, a subjetividade, as multi-identidades estiveram sempre permeando as ações interpretativas e produtivas do homem. Portanto, tratar desses aspectos como fenômenos sociais recentes, marcas divisórias da história da humanidade e fator decisivo de uma condição pós-moderna, constitui, a nosso ver, um mero trabalho de marketing dos intérpretes sociais de hoje. Não queremos com estas afirmações negar ou diminuir a importância das mudanças aceleradas que vêm acontecendo nos últimos 90 anos. Há, sim, inúmeras questões que têm se apresentado e mudado a rota de diversos indivíduos constantemente. E dentro destas mudanças destacamos: o distanciamento dos aspectos tradicionais, a banalização das referências, a descrença no conjunto, a diminuição das possibilidades de caminhos, a esclerose das ideias, a consolidação dos discursos vazios e o domínio pleno da mercadoria.
Grandes autores com grandes ideias têm perdido espaço e importância para outros que conseguem adequar melhor os seus discursos aos momentos fantasiosos dos dias de hoje. Leitores e provedores da necessidade de se estar sempre em contato com a tradição têm sido cada vez menos conhecidos e reconhecidos pela massa mais jovem. Indivíduos do porte de Harold Blomm, Beatriz Sarlo, Marshall Berman, Antônio Cândido, Luiz Costa Lima, Fernando Novais, Sérgio Paulo Rouanet, Raymmond Williams entre outros são cada vez menos presentes nas prateleiras das livrarias e nas estantes de livros dos estudantes. Parece-nos que uma das características da moda pós-modernidade é deixar de lado a tradição e se debruçar apenas no topo da pirâmide do pensamento humano. Não que esse topo reflita o melhor momento da história do pensamento, o essencial, mas apenas reflete o limitado mundo receituário do ser pós-moderno.
Reconhecemos que esse momento que nos tem levado a criar esse ostracismo para a tradição cultural e intelectual humana não brotou do acaso nem ocorreu impulsionadamente. Ele foi devidamente preparado para o seu devir histórico. Utilizando-se para isto somente observações da realidade e da junção de ideias, como por exemplo, a ideia da morte de Deus, o fim da autoridade do pai, o discurso de se extinguir valores que, segundo alguns autores dos estudos culturais de hoje, foram formados por um sujeito homem, branco, heterossexual, burguês, católico, machista e europeu. Soma-se a isso a valorização do inconsciente e algumas correntes do movimento feminista em que se objetivou tirar o homem do centro e se colocar uma mulher no seu lugar, todas essas linhas de pensamento provocaram a total descrença na tradição e nos seus valores.
Com todas essas ações não só a tradição se fragilizou, mas o homem também. Como produto disso, iniciou-se então um processo de desraizamento, da perda das referências, do desamparo e que tem como sintomas esse vasto campo vazio de ideias, posicionamentos e crítica.
Assim “suar a camisa” para ler e refletir sobre autores do porte de Marcel Proust, Joyce, Guimarães Rosa não constitui uma atividade agradável ou mesmo necessária para um sujeito pós-moderno. Realizar leituras resumidas disponíveis na internet para ter um ar de intelectualidade no meio social é bem mais valorativo e necessário. Além disso, como afirma em alguns momentos Pierre Bayard na obra Como falar dos livros que não lemos? É melhor se desenvolver uma performance teatral de profundo conhecedor de um vasto campo de obras e autores diante dos outros sujeitos pós-modernos do que se limitar na leitura real de poucas produções. Devemos assim, obrigatoriamente, situarmos sobre elas. Essa é uma situação típica da pós-modernidade.
Não queremos ser maniqueístas com a modernidade e pós-modernidade, mas sim, promover discussões que nos sirvam de reflexões e referências para a nossa constituição social e intelectual.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Conversa entre amigos: Poesia (I)


Herasmo Braga
Receber amigos é algo que agrada qualquer individuo. Seja para uma simples visita, confraternização ou mesmo em certos momentos delicados da vida. Tão importante e prazeroso quanto a sua chegada são as conversas. Atualizar questões, debater assuntos dos mais diversos é um exercício não só de convivência, mas também de inteligência.
Em uma destas visitas eis que surge a pergunta o que é poesia? Todos nós tentamos das mais variadas formas sustentar uma resposta completa e didática, no entanto, diante do olhar de não entendimento, desisitimos. A poesia não só é algo complexo para se produzir, interpretar, mas também conceituar. No desenvolver das nossas conversas o tema poético foi sendo desenvolvido e aprofundado.
Entre os temas poéticos destacado foi sobre a primeira geração de literatos no Piauí. Todos reconheceram a grandiosidade desta primeira geração de intelectuais piauienses, surgida no final do século XIX e início do século XX. Nomes como Clodoaldo Freitas, Hignio Cunha, Abdias Neves, Lucídio Freitas, Da Costa e Silva são nomes marcantes não só nas nossas letras como também grandes formentadores culturais da província naquele momento. Esta geração marcou não só o surgimento de uma valiosa geração de intelectuais, como também, a mais bela e profunda geração de intelectuais até os nossos dias. Eles souberam como poucos dialogar a tradição com o momento presente. Realizaram leituras verticalizadas sobre uma gama dos mais refinados mestre das artes e não deixaram a desejar nada em relação as outras geradas nos mais diversos estados brasileiros. Todavia, mediante a um processo natural ocorreu a substituição dela.
Assim, nos anos vindoros deste processo analisamos hoje que o brilhantismo de antes não se sustentou. Poucos se destacaram como por exemplo, após quase 50 anos, tivemos dois individuos de grande potencial que em muito se assemelhavam na seriedade e no talento intelectual e cultural a grande geração primeira. As notáveis figuras surgidas nesse momento foram: H.Dobal e O.G. Rego de Carvalho.
Mas, os anos se passaram e a formação de um grupo tão qualificado como os primeiros não se firmava. Não surgiram, portanto, tão grandes nomes ou grandes obras nem dentro e nem fora da Academia Piauiense de Letras. O que ocorria nesta momento como até os dias presentes foram e são brigas de egos através de produções literárias de qualidades irregulares e teorização ou diálogo com os clássicos feitas superficialmente.
Advertimos, no entanto, que não pretendemos com estas questões ser reducionistas, mas apenas promover o debater em um texto curto - de maneira responsável - algumas observações sobre a produção literária em um primeiro momento do gênero poético no Piauí, em especial em Teresina nos ultimos anos .
Dentro das mais recentes produções podemos desenvolver de maneria didática duas matrizes. A primeira situamos em um fazer poético muito mais associado a uma interpretação não bem desenvolvida dos clássicos. Observamos que a partir dessas construções tivemos a elaboração de poemas com sentidos e procedimentos poéticos deficientes. Claro que no meio deste celeiro podemos encontrar algumas raras agulhas, mas no geral há muito mais feno.
Se de um lado tinhamos os interpretes deficientes que confundiam produção poética com interpretação apressada dos clássicos, ou mais especificamente, reconstrução deficitárias dos poemas; por outro tivemos a construção de poemas planfetários. Esses poemas ganharam força e projeção durante um forte período histórico de repressão e censura. Após esse momento histórico por carência nossa, tornaram-se mitos e foram cultuados pelo saudosismo de plantão do tempo presente. E hoje estas produções e, outras mais recentes, estão sob a égide dos teóricos da academia universitária, estão cobertos diante de uma linha denominada Estudos Culturais. Portanto, outros poetas ganharam projeção ao valorizar seguimentos sociais marginalizados. Enfatizamos que não causa neles nenhum mal estar devido a esse apadrinhamento de outras fontes para ganhar credibilidade e representação estética.
Essas duas matrizes continuam a (re)produzir efeitos e defeitos. Vários são os apressados em nossas terras que se lançam a produzir poemas de baixo valor estético. Criam grupos, denominações, maneiras de divulgar seus trabalhos das formas mais formais ou bizarras possíveis.
Asseguro aos que se dedicarem a leitura deste pequeno comentário, que para construir este texto, com essas observações; não fomos levianos ou todo impressionista para fazê-lo. Lemos sim poemas, mas não muitos. Não foi por falta de material, mas falta de ânimo em mergulhar em tanto feno. Pretendemos assim, como já destacado anteriormente, promover o debate e não cair tão somente nos discursos vazios, perdendo assim, tempo ouvindo reclamações dos que se sentirem ofendidos pessoalmente, já que infelizmente no nosso Brasil nos parece que criticar um texto de alguém é estar a se criticar pessoas.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Não são coisas do futebol

Herasmo Braga

Nos últimos anos tivemos vários motivos para comemorações. Entre os momentos de glória temos a tão sonhada estabilidade economica, os maiores períodos democraticos da nossa história - sem sobressaltos, a constituição com mais tempo de vigência e a possibilidade de sediar os dois maiores eventos esportivos do mundo: a Copa do Mundo de Futebol 2014 e as Olimpíadas em 2016. Reconhecemos que todo esses méritos não incidem por obras do acaso. Sem uma visão um tanto ufanista, vieram já até meio tarde. Assim, motivos de alegria são o que não nos falta, todavia o que nos tem assustado um pouco são as permanencias dos péssimos hábitos que entre os países bem melhor organizados já aboliram há tempo. São estas atitudes que aqui questionamos, pois são frutos de um autoritarismo ultrapassado que só evidência a falta de sereniedade e seriedade nas articulações por demais demodé por parte de setores que se apropriam de coisas alheias com se fossem propriedade sua. É a nossa tradicional mistura histórica do público e do privado destacados nas análises dos historiador José Murilo de Carvalho e do antropólogo Roberto D´mata.
Acompanhar o futebol brasileiro na sua organização interna e na preparação de uma Copa do Mundo nos envergonha. Como aconteceu na história recente do nosso país - na organização de um evento esportivo de menor porte quando comparado com a Copa do Mundo e as Olimpíadas - que muitos esperam mais uma vez o uso indevido do dinheiro público para custear seus bens privados. O presidente da CBF é um exemplo. Este sujeito assumiu o posto de presidente da conferderação do futebol brasileiro há quase três décadas. Em suas ações percebemos que ele não mede esforços para atuar de maneira rasteira quando tem seus interesses contrariados. Exemplos desses tipos de atuações temos diversos. Entre as suas ações inoportunas podemos destacar a organização da comissão responsável pela organização da Copa do Mundo. Membros não só de confiança, mas de estreitas relações familiares estão cirurgicamente distribuídos em cargos estratégicos. Mas como se só esse mal não bastasse, o vitalício presidente da CBF meteu-se na eleição de uma entidade representativa dos clubes de futebol. Ele tentou impor a caditadura de um sujeito que já teve o seu atestado de idoneidade comprovado no futebol brasileiro ao quase levar a falência de um clube de maior torcida do Brasil através de diversos casos de incopetência administrativa somada aos inúmeros escândalos de corrupção passiva e ativa. Diante de tamanha autoritarismo inúmeros clubes se rebelaram e não aceitaram tamanho desmando e quem comandou o levante teve as suas merecidas represálias.
O caso mais conhecido foi a exclusão do estádio do Morumbi como sede de jogos na Copa do Mundo. Juvenal Junventus bateu o pé e não aceitou Kleber Leite como presidente do clube dos 13 e lutou para a reeleição do já também ultrapassado Fábio Koff, que representava naquele momento um mal menor do quer Kleber Leite a frente da instituição. Os mais otimistas ou ingênuos diriam: o Internacional também votou contra Kleber Leite e não teve o estádio Beira Rio excluído. Boa observação essa, mas incompleta. A voz que de fato se levantou contra essa tentativa de manipulação e falência do clube dos 13, promovendo articulações para a não vitória do candidato de Ricardo Teixeira foi o presidente do São Paulo. O Inter apenas cumpriu o seu papel de votar, talvez por isso a sua punição seja menor ou virá apenas no futuro.
Ao São Paulo Futebol Clube cabe agora assistir os demandos e autoritarismo do Ricardo Teixeira e seus comparsas que entre eles o maior ou mais privilegiado pela sua dedicação servil seja André Sanches, presidente do Corinthias. Enquanto todos os estágios tiveram vistorias rigorosas e planejamentos refeitos, o novo estádio do Corinthias, se é que se tornará realidade, já nasceu pronto e aprovado por telepatia para promover a abertura da Copa do Mundo. O detalhe disso fica por conta que ninguém viu ou conhece o projeto. Isso sim, é fazer valer não de credibilidade como afirma André Sanches, mas de oportunismo e mimo de pessoas despreparadas, desprovidas de caráter e que conduzem instituições importantes.
Um outro dado interessante nesta orquestração são os custos e quem vai bancá-los. A construção de um novo estádio custará bem menos do que as reformas em outros existentes como por exemplo: o Maracanã que custará 720 milhões de reais, o Mineirão 666 milhões de reais, o estádio de Brasília 696 milhões de reais. Detalhe todos são reformas, enquanto do Corinthias que é a construção de um novo e moderno estádio terá custo menos da metade deles. Essa comparação é de se estranhar no mínimo.
Sei que muitos ao lerem esse texto podem pensar: trata-se de algum são paulino rancoroso. Realmente quem escreve é um torcedor do tricolar paulista, só não rancoroso. Também um cidadão que, acima de tudo; condena atitudes inadequadas para melhor viver. Condena o seu clube não só por contratações mal sucedidas, mas por uma elitização de torcedores que não condiz com a realidade do nosso país. Condena um clube que falta aos seus dirigentes mais humildade e pés no chão. Condena o seu clube que deveria abrir mais as portas para a sua torcida principalmente aqueles que vem de longe e tentam conhecer o CT da Barra Funda e se deparam com seguranças nada educados que cuprem ordem de não permitirem a entrada de ninguém sob nenhuma condição. Condena o clube que deveria pedir desculpas quando errasse e não atribuisse somente falta de sorte. E que espera dias melhores...
Esperamos também a Copa do Mundo e que ela sirva de motivação para a democratização e organização do futebol brasileiro. Sirva para banir pessoas que pensam de maneira diferente do que o povo brasileiro almeja. Torcemos para o sucesso brasileiro dentro e fora de campo sem a farra de dinheiro público. Aguardamos que esse evento traga beneficios ao nosso país e que nos eleve ainda mais a nossa alta estima.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Um eleitor cansado

Findada mais uma eleição, lanço-me agora sobre os seus resultados. Reconheço estar neste momento dotado de sentimentos frustativos e até mesmo pueris. Mas estou decidido a afastar-me desta festa democrática! Não que eu tenha algo contra a democracia e os seus poderes representativos, mas decepciona-me ver como as coisas se encaminham nesse mundo da fantasia individualista.
Nestas eleições, observei situações um tanto atípicas enquanto outras mais do que repetidas. Fiquei orgulhoso - em um primeiro momento - com o fato de finalmente termos uma outra alternativa presidencial pautada dentro de uma realidade desejada e possível. Alternativa essa configurada em um sujeito competente e de sensibilidade social e ambiental. Soma-se a isso os traços biográficos fantásticos, tão marcantes como os que me levaram a adotar Lula como meu candidato desde da minha primeira votação em 1998. Sujeito esse de biografia singela e encantadora.
Por outro lado acompanhei a ausência de propostas e repetições de discursos de outrora e de outros de conteúdo futebolistico. Candidatos sem propostas ou compromissos significativos apareciam com uma única frase: nós somos do time de Lula. Esse mantra eleitoral marcava de maneira expositiva os vazios de conhecimentos político-social dos novos e velhos representantes. Com certeza esses aspectos devem ter feito até o individuo mais alheio a esse processo eleitoral ter se irritado com tanta repetição e tédio eleitoral.
Se por um lado comemorei uma significativa renovação necessária devido a inércia dos que antes se faziam presente na vida política brasileira, por outro enojou-me a eleição de esposas, filhos, irmãos e irmãs de velhas raposas, pois já sabemos que pouco ou nada propocionarão um progresso de desenvolvimento social mais justo e equilibrado. Os tais contemplados eleitoralmente serão apenas figurantes, pois o homem do lado de cá é quem dará as cartas. Como se tudo isso não bastasse, tivemos a ousadia e discirnemento de eleger um palhaço de vocação e não mais só de profissão. Mais um a incorporar o circo do Congresso Nacional Brasileiro. Não será nenhuma novidade sabermos que o palhaço estreante fará seus interessantes shows a um menor valor quando comparado aos mais antigos.
Realmente estou muito decepcionado com o não reconhecimento do trabalho realizado por pessoas de bem e que foram candidatos. Cito-os nominalmente por serem sujeitos ideias para uma República ideal: Antonio Neto e Nazareno Fonteles. Estes sim, seriam muito mais merecedores do que qualquer palhaço de circo, esposa, filho, irmão, irmã, raposa velha; para fazer frente a um Congresso participativo e gerenciador das conquistas sociais e qualitarias necessárias para o desenvolvimento da nossa nação.
Por estas e outras razões pretendo, portanto, amigos sair de cena não para sair da vida e entrar para a história, mas para não participar deste mundo imundo da política

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Razões que não se explicam

Herasmo Braga
Professor e ensaísta

Macia era a vida
sob as faveiras
antes da faca
dividir o boi
em novas glebas.

Antes que o tempo
fosse cortado
e o gado bravo
fosse levado
no macio andar
dos caminhões.
(Relatório, O tempo consequente)

Antonio Candido, em seu livro Vários Escritos, questiona a, até bem pouco tempo, ausência de Machado de Assis no rol dos grandes autores além das fronteiras do Brasil. Uma das justificativas para esse “esquecimento”, Candido aponta a pouca importância geopolítica que a língua portuguesa exerce no mundo.
Percebe-se, então, que tais observações são plausíveis e dignas de respeito, não por terem sido tratadas por Candido – crítico consagrado –, mas porque tais condições políticas, econômicas e sociais acabam interferindo na formulação objetiva do cânone. Apesar de seu texto ter sido publicado já há algum tempo e, portanto, refletiu o momento histórico daquele contexto, hoje as obras de Machado de Assis começam adentrar o universo dos autores consagrados, graças à iniciativa de críticos de peso, como Harold Bloom, John Gledson, Helen Caldwell, Susan Sontag, David Jackson, Jean Michel Massa entre outros.
Diante desse contexto, podemos observar que isso também acontece com outros autores distanciados do centro, pois eles acabam sendo marginalizados pelos meios intelectuais nacionais. Há inúmeros exemplos que padecem dessa miopia ou manca atuação intelectual, e dentre eles destacamos Hindemburgo Dobal. Vale a pena registrar o nosso desconforto e desconfiança dessa ausência no reconhecimento do vigor poético de Dobal, pois poetas e críticos consagrados já se manifestaram em relação ao poeta, como Manuel Bandeira, que o tratou de “poeta por excelência, um visceral da terra”; e Wilson Martins que afirmou: “O Sr. H. Dobal retransforma a poesia brasileira e folclórica pelo instrumento da poesia erudita e literária”; e Fábio Lucas, que o chamou de “poeta autêntico, de alta consciência verbal e forte expressão lírica”.
Justificativas para isso poderíamos especular diversas, mas uma delas nos parece ser mais aceitável: por conta do nosso isolamento histórico, desde nossa colonização, iniciada nas primeiros currais de pedra, desenvolvemos discursos que nos limitam ao meio. Por conta dessas ações envaidecedoras ou até mesmo de certo receio ao externo, acabamos, com isso, consolidando um sentido de auto-suficiência nocivo para vida cultural local.
Uma outra questão levantada que poderia justificar esse desconhecimento nacional de H. Dobal foi formulado por Ivan Junqueira, em depoimento apresentado no documentário de Douglas Machado, “H. Dobal – Um Homem Particular”, produzido pelo Instituto Dom Barreto e Trinca Filmes. Segundo Junqueira, Dobal não estava vinculado a nenhum grupo literário ou a concepções estéticas em moda da sua época, constituindo-se assim, um poeta singular, que acabou se isolando e ficando restrito apenas ao Piauí. Somando-se essas duas questões, que acabam desaguando no discurso do centro para periferia, e não o contrário, temos motivos que contribuem de forma decisiva para esse desconhecimento nacional do poeta. Outra proposição mencionada diz respeito ao caráter hermético de seus poemas, leitura interpretativa da qual discordamos, pois o que acreditamos é que, na produção do poeta, ele vai buscar em diversos meios e na tradição literária a realização do seu oficio, fundindo e difundindo suas concepções universais utilizando-se da sua terra como matéria a ser lapidada. A materialidade dos seus poemas, Dobal retira dos aspectos do cotidiano, da singeleza das ações e do ato do viver do homem desprovido de sentimentalidades excessivas.
Esperamos diante das facilidades comunicativas de hoje possamos corrigir essa injustiça a um grande poeta. Tirá-lo da nossa exclusividade e levá-lo a degustação de outros sujeitos não só do nosso país continente. Lembrando sempre que para a boa poesia não há fronteiras que se justifiquem.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Novos autores e obras: Vozes do Sotão de Paulo Rodrigues

Zuenir Ventura tem uma posição que compartilhamos prontamente sobre as ameaças apocalípticas do final do século XX e inicio do XXI. Já que não é de hoje que se proclama o fim, por exemplo, da pintura com a invenção da fotografia, do cinema com a televisão, do livro com a internet, do autor, de Deus e tudo mais. Para Zuenir tudo isso não passa de histeria dos receosos da arte de se inventar e reinventar, diz ele: “acho que ocorre convergência e não antagonismo entre as tecnologias. Uma tecnologia nova exige o aperfeiçoamento da anterior, não sua extinção”. Assim diante desta ideia o que devemos observar são as ações do reinventar, do tranfigurar. Portanto, nada o que se move e inova não se extingue o anterior, e sim, acrescenta-se.

Em relação à literatura devemos nutrir o mesmo sentimento. Não se pode dar continuidade a uma tradição, a nosso ver equivocada, que acredita que a boa literatura nacional só foi até a década de 20 do século passado e que dede então não há ou pouco se tem de grandiosas obras em nossas letras. Há sim, muitos autores ainda por serem visitados e revisitados que produziram antes, durante e depois do levante modernista, em sua maioria, autores dignos das nossas melhores observações. No contexto recente de autores com obras marcantes, destacamos dois romancistas: Milton Hatoum e Paulo Rodirgues.

Milton Hatoum, hoje, começa a fazer parte do cotidiano dos bons leitores nacionais que estão inseridos dentro e fora do meio acadêmico. Sua obra tem forte influência de alguns autores consagrados como Proust e Faulkner. O traço memorialista é uma constante em suas obras. Suas produções ainda que pequena em número, ganha ares de grandiosidade na qualidade como Relato de um certo oriente, Dois irmão e Cinzas do Norte todos romances merecedores de admiração e respeito. Acrescenta-se no rol de suas publicações ainda a novela Órfãos do Eldorado e o livro de contos Cidade Ilhada obras essas um tanto aquém quando comparada com as primeiras. Outro autor que deve ter o seu valor reconhecido é Paulo Rodrigues que somente aos 53 anos lançou seu primeiro livro à margem da linha, em 2001. Em 2004 publicou o livro de contos Redemoinho, escrito durante 25 anos. Diz Luiz Paulo Faccioli ao escrever sobre Paulo Rodrigues: “A verdade é que o texto literário — situação que se aplica também às demais artes — não nasce no instante em que o autor se dispõe a escrevê-lo. Semelhante à gestação de um ser vivo, a produção artística começa muito antes de sua realização e nada mais é que o reflexo de um conhecimento sedimentado ao longo do tempo e da interpretação original que der o autor a esse conhecimento”. (Rascunho, 2003)

Na mesma linha de pensamento sobre o seu ato de produzir com parcimônia sua produções afirmou Paulo Rodriques que: “De fato não tenho ansiedade em publicar. Escrever é uma necessidade, publicar pode ou não ser uma conseqüência” (Rascunho, janeiro de 2010).

Em 2009 foi lançado Vozes do Sótão, em que a ideia do livro surgiu a partir das anotações feitas pelo seu padrasto em uma cardeneta há 52 anos. Paulo Rodrigues despertou um forte sentimento de empolgação por parte da crítica e de alguns autores de grande projeção nacional com a sua primeira obra como Raduam Nassar. Nassar chega a afirmar que Paulo Rodrigues “maneja a língua de forma invejável”. Já Luiz Fernando Carvalho diretor cinematográfico que adaptou Lavoura Arcaica para o cinema define a produção de Paulo Rodrigues como uma “travessia interior, uma queda para o alto”.

Vozes do Sótão narra o pequeno drama familiar de um homem simples e confuso, exilado no mundo, num mundo próprio tentando conviver com o passado que se apresenta constantemente em seu ser aterrorizando-o. Já nas primeiras linhas percebe-se o clima desconexo, introspectivo. Alguns fatos mencionados na narrativa lembram alguns contados por Dalton Trevisan. A fragmentação da escrita - influencia marcante de grandes autores como Clarice Lispector - com a intervenção de outras vozes agradam a leitura e insere o leitor nas angustias intimistas do narrador. A polifonia gera a tensão que se mantém durante todo desenvolvimento do enredo.

O relato é subdividido em dois pontos de vista. A voz da narrativa, na terceira pessoa destacado em itálico, descreve de forma objetiva os fatos do narrador (Damiano). Sujeito rejeitado pela mãe e pelo irmão Dagoberto. Estrume esta é a expressão utilizado pela mãe ao refererir-se a Damiano e constitui uma das marcas do desprezo da mãe. Damiano vive de maneira isolada, guardando em sua memória além das trágicas lembranças um estojinho de veludo já bastante desgastado pelo tempo em que depositava alguns objetos que pertenciam a ela.

Faz parte da narrativa uma voz que vem das suas dolorosas marcas do passado, uma voz que emerge do sótão que assombra esse sujeito que tem como profissão ser alfaiate por ser algo obsoleto, demonstrando, no dizer de Lúcia Bettencourt “sua inadequação ao mundo que o repudia mesmo quando tenta integrar-se (Rascunho, dezembro, 2009). É um romance conflitante do inicio ao fim, que nos toma de sobressaltos todas as nossas expectativas sem nos decepcionar no final. Assim, Paulo Rodrigues constitui em uma agradável surpresa em nossas letras. Digno das melhores adaptações de suas obras para o cinema e acréscimo de um contingente cada vez maior de leitores de suas obras.
[Herasmo Braga]

sábado, 29 de maio de 2010

DUAS ELITES / Rascunho

DUAS ELITES
Os resultados e estratégias da "velha guerra" entre alta literatura e literatura de gênero

Tereza Yamashita

Caro leitor, por um minuto esqueça que o mundo não é feito somente de extremos, que as coisas não são apenas pretas ou brancas. Esqueça todas as gradações, todos os matizes, todas as etapas intermediárias entre o sólido e o líquido, entre o líquido e o gasoso. Só por um minuto, vou precisar simplificar a realidade a fim de apalpar certo fenômeno que, como qualquer fenômeno deste mundo de certezas provisórias, sai irritantemente do foco sempre que alguém tenta capturá-lo. Agora venha comigo e procure pensar que no mundo literário existem apenas dois grupos antagônicos. Esqueça as outras possibilidades, os grupos menores de que cada grupo é feito, os conflitos e as contradições que agitam internamente as células de cada grupo. Só por um minuto, vamos simplificar.

Imagine um grupo chamado crítica acadêmica. Esqueça que os subgrupos que o formam - multiculturalistas, estruturalistas, pós-modernistas, sociológicos, teóricos da recepção, etc. - estão em constante combate ideológico. Imagine outro grupo, chamado literatura de gênero. Esqueça que os subgrupos que o formam - new weirds, cyberpunks, new wavers, góticos, adeptos da FC hard, etc., para ficar apenas na ficção científica - também estão em constante combate ideológico.

É sabido que a crítica acadêmica, praticada nas universidades e em boa parte da imprensa (a maioria dos jornalistas tem mestrado e doutorado, outros são professores universitários), torce vigorosamente o nariz para a literatura de gênero: policial, espionagem, ficção científica, fantasia, terror, etc. Também é sabido que os autores, os editores e os consumidores da literatura de gênero torcem o nariz, com igual vigor, para a crítica acadêmica e as obras que ela legitima. Isso deixa claro que o jogo literário, diferente do futebol ou do boxe, tem pelo menos dois conjuntos de regras. O critério aplicado pelo primeiro grupo na avaliação das obras literárias é o reverso do critério aplicado pelo segundo grupo.

São duas elites, cada qual com sua balança e sua régua. A primeira diz que trabalha apenas com a alta literatura, com a grande literatura, com a Literatura com inicial maiúscula. Ela acusa a segunda de trabalhar somente com a baixa literatura, com a literatura vulgar, fácil, de entretenimento. A segunda elite acusa a primeira de ser elitista, aristocrática e esnobe, de só apreciar obras de linguagem complicada e obscura. As obras abençoadas pela segunda elite geralmente vendem mais do que as obras abençoadas pela primeira, que se ressente muito disso. E se vinga, fundando um clube muito mais elegante e prestigiado, chamado establishment, ao qual jamais permitirá que sejam admitidos uma obra ou um autor da segunda elite, que também se ressente disso.

Os dois critérios de avaliação literária são:

Critério da elite acadêmica

1. Linguagem original, conotativa, que não possa ser atribuída a outros escritores do presente e do passado, por vezes avessa à norma culta. O autor deve se expressar de maneira única, inaugurando seu próprio modo poético.

2. Subjetivismo. Narrador modernista, tortuoso ou fragmentário, psicológico, pouco confiável, às vezes delirante.

3. Enredo frio, pobre em ação, sem muitas peripécias ou surpresas, próximo da vida comum. A forma literária é mais importante do que o conteúdo.

4. O mundo interior do protagonista e das personagens é mais importante do que seu mundo exterior.

5. Fuga do gênero a que (supostamente) pertence. Faz parte do desejo supremo de originalidade a rejeição das principais diretrizes do gênero a que a obra pertenceria. O novo romance quer transcender os limites do gênero romance, o novo conto quer transcender os limites do gênero conto, o novo poema quer transcender os limites do gênero poema.

6. Purismo. As obras fronteiriças ou mestiças, que apresentam elementos dos dois mundos, são violentamente rejeitadas pelo sistema.

Critério da elite da literatura de gênero

1. Linguagem transparente, denotativa, por vezes complexa, mas ainda assim reconhecível por uma vasta gama de leitores. O autor deve se expressar respeitando a norma culta que orienta o uso do idioma.

2. Realismo. Narrador clássico, organizado e disciplinado, pouco introspectivo, confiável, onisciente.

3. Enredo quente, rico em ação, cheio de peripécias e surpresas, afastado da vida comum. O conteúdo literário é tão importante quanto a forma, ou até mais.

4. O mundo exterior do protagonista e das personagens é mais importante do que seu mundo interior.

5. Adequação ao gênero e ao subgênero a que pertence. O romance ou o conto policial, de fantasia ou de ficção científica respeitam as balizas que definem o gênero e o subgênero a que pertencem.

6. Ecumenismo. As obras fronteiriças ou mestiças, que apresentam elementos dos dois mundos, se não são bem aceitas pelo sistema, ao menos não são sumariamente rejeitas.

Muitos autores do primeiro grupo caem em depressão ao perceberem que seu romance, ou sua coletânea de contos ou de poemas, é um retumbante fracasso comercial, apesar do amplo reconhecimento da crítica especializada. Jamais terão o número de leitores de que se julgam merecedores. Muitos autores do segundo grupo, diante do sucesso de vendas de seu romance, ou de sua coletânea de contos (raramente há poetas aqui), também ficam deprimidos ao perceberem que jamais terão o reconhecimento da crítica acadêmica e conseqüentemente jamais figurarão nas apostilas e nos compêndios do ensino oficial. Jamais pertencerão ao establishment.

Uns aceitam a contragosto a situação e seguem em frente. Outros esperneiam e brigam. Insultam. Dizem, os do primeiro grupo, que o Brasil não é um país de leitores (de leitores qualificados, é o que querem dizer), afirmam que a imbecilidade e a massificação reinantes são culpa da tevê e da péssima qualidade do ensino público. Dizem, os do segundo grupo, que os críticos acadêmicos confundem complexidade com complicação, afirmam que os membros dessa elite literária beneficiam as obras mais áridas e menos inteligíveis como estratégia de dominação cultural e social.

Mas o maior pecado que os membros de cada grupo cometem é avaliar as obras do grupo adversário com o critério errado. Avaliar as obras da literatura de gênero com o critério da elite acadêmica gera todo tipo de mal-entendido. Avaliar as obras da alta literatura com o critério da elite da literatura de gênero também. Confusão e encrenca. Nada de proveitoso pode resultar dessa inversão de valores motivada pelo puro chauvinismo.

Aí está o esboço em preto-e-branco do conflito alta literatura versus literatura de gênero. E se acreditarmos, concordando com o que Étienne Souriau escreveu em A correspondência das artes, que há certa analogia entre os diversos sistemas artísticos, esse esboço de uma luta de classes literárias poderá ser facilmente adaptado à esfera do cinema, do teatro, da música, etc.

Obrigado, caro leitor, por aceitar meu convite e atravessar comigo uma paisagem simplificada, que, apesar do desenho esquemático e sem detalhes, parece representar relativamente bem um conflito real, um dilema que não é de hoje. E chegamos ao ponto principal da caminhada. Não ao seu final conciliador - estamos muito longe de encontrar a solução para o impasse -, mas ao meio: à simples, clara e objetiva formulação do problema. Uma formulação que procurou evitar as falácias tão comuns (sofismas, falsos axiomas, observações inexatas, erros de acidente) nas mesas-redondas e nos debates on e off-line. Para que você agora opine, concordando, discordando ou mudando o ângulo de visada e propondo outro modo de avaliar a situação.